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03/12/08
05/05/08
Aconteceu em plena sapataria, com o empregado especado a mirar-me os pés e os outros dois a moerem-me o juízo. Um comodamente sentado no meu ombro esquerdo, como sempre o exemplo do bom comportamento, o outro pendurado na orelha direita, a balançar de um lado para o outro, como sempre o bom exemplo do mau comportamento. No chão, três caixas semi-abertas, cada uma com um par de sandálias. Pedi o mesmo modelo em amarelo, laranja e violeta. A etiqueta marcava um preço escandaloso, tão escandaloso quanto as sandálias, que, garanto-vos, são escandalosamente giras. O que estava pendurado na orelha chamava-me a atenção para a cor, o outro para o preço. Tentei ignorá-los. "Acho que vai ser o amarelo", pensei. Mas era verdade que o preço continuava a inibir-me. E o empregado continuava a mirar-me os pés e a dizer as barbaridades que era preciso dizer só para me convencer. O que estava sentado no ombro direito, rodopiava a auréola no indicador ao mesmo tempo que me segredava “são excessivamente caras. Quando saíres da porta já te arrependeste”. O outro puxava-me o cabelo e repetia “leva as violeta, leva as violeta, ficam-te melhor e quando voltares já não vais encontrar o teu número.”. E o empregado a insistir “mas ficam-lhe tão bem, leve!”. Saí da sapataria sem sandálias e com os outros dois a provocarem-se. O da auréola cantou vitória, mas o outro sabe que o mais provável é voltar comigo ao local do pecado. Será que ainda encontro o meu número?
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